O Trauma Invisível: Reflexões no Dia Mundial da Saúde Mental
Ontem, dia 10 de outubro, celebrou-se o Dia Mundial da Saúde Mental, e, ao refletir sobre esta data, a minha mente foi inevitavelmente invadida por memórias do meu pai.
Os antigos combatentes da guerra colonial portuguesa, muitos dos quais participaram em combates violentos e presenciaram horrores inimagináveis, regressaram a uma sociedade que não estava preparada para compreender ou apoiar as consequências psicológicas da guerra. O meu pai não foi exceção. Durante anos, assisti de perto aos efeitos do trauma de guerra, manifestados em episódios de ansiedade, insónia e, por vezes, agressividade. Ele raramente falava da guerra, mas o seu silêncio era, por si só, revelador do peso que carregava. Era como se a guerra nunca tivesse realmente terminado para ele.
Olhando para trás, percebo agora o quanto a saúde mental esteve no centro das nossas vidas, mesmo que durante muito tempo não tivéssemos a linguagem ou os recursos para lidar com isso. Como muitas famílias de antigos combatentes, não tínhamos a consciência de que o que ele experienciava era, de facto, stress pós-traumático (SPT). A sociedade portuguesa, nos anos que se seguiram à guerra colonial, ainda não falava abertamente de saúde mental, e muito menos dos traumas de guerra. O estigma era enorme, e os antigos combatentes foram, muitas vezes, deixados a enfrentar sozinhos as suas batalhas internas.
O Dia Mundial da Saúde Mental é, para mim, um momento de reflexão pessoal, mas também de reconhecimento coletivo. A minha vivência com um pai traumatizado pela guerra colonial ensinou-me que a saúde mental é um tema profundamente interligado a questões sociais e históricas. O trauma não afeta apenas o indivíduo, mas alastra-se a todos à sua volta. Hoje, mais do que nunca, reconheço a importância de falarmos abertamente sobre os transtornos mentais, especialmente aqueles que resultam de experiências de guerra. É fundamental que a sociedade reconheça e valide essas experiências, oferecendo o apoio necessário para a sua superação.
Ao refletir sobre a experiência do meu pai, sou também levado a pensar na resiliência daqueles que, como ele, sobreviveram à guerra, mas tiveram de enfrentar uma batalha contínua no regresso à vida civil. O trauma da guerra não é uma experiência que se apaga com o tempo; é uma ferida que, se não tratada, pode continuar a sangrar, mesmo décadas após o fim do conflito. Neste dia de consciencialização, sinto que a nossa responsabilidade, enquanto sociedade, é assegurar que esses indivíduos não são esquecidos, e que o apoio à saúde mental é acessível a todos, sem exceção.
Por fim, este dia recorda-me a importância de continuar a lutar contra o estigma associado à saúde mental, não apenas em relação ao trauma de guerra, mas em todas as suas formas. O meu pai e tantos outros antigos combatentes carregam as cicatrizes de um passado que não escolheram, mas que lhes foi imposto. A nossa obrigação é garantir que ninguém, seja vítima de guerra ou não, tenha de enfrentar sozinho as suas batalhas internas.

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